Desculpa se te chamo de amor...

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Eco.



Paro, e tento escutar alguma coisa. São quatro da manhã, e não há um barulho se quer, na rua, na vizinhança. Não há nem o barulho do vento, ou de algum cachorro meio distante, latindo. Isso não é de se espantar, afinal, são quatro da manhã e, a essa hora, todo mundo está dormindo. Menos eu. Gosto de madrugadas, desse silêncio que elas proporcionam por que, só assim, consigo escutar todo o barulho dentro de mim. Mas não foi o que aconteceu hoje. Nada. Vazio. Oco. Nem um ruído, nem um pensamento, nem uma fantasia, nem uma vontade. Literalmente, nada. Bate aqui no meu peito. Sentiu? Oco. Pode me beliscar o quanto quiser. Vai ser zero pra dor e um a menos pra vibração. Tento gritar, mas o grito volta. Eco. Não há quem ouça do outro lado desse abismo imenso. Antes, eu lembro que tinha fé, rezava para tudo o que eu acreditava e conversava com quem estivesse ali, pra me proteger, e me dar forças. Hoje, não passo daquele pai-nosso e ave-maria com os olhos fechados, morta de cansaço. Eu precisava de uma fé incalculável para me arrastar pra fora da cama e encarar tudo o que me esperava por trás da porta do meu quarto. Hoje, eu ainda preciso dessa fé incalculável, mas ela entrou em modo automático. Levanto da cama por que é preciso, estudo por que só assim serei alguém na vida, encaro o que tenho que encarar, por que não dá pra fugir. Por que não posso falar não. Por que não tenho pra onde correr. Pra quem correr. Não é fácil ter que cuidar de você ao mesmo tempo que outras pessoas precisam de um cuidado especial vindo também de você. Perdi a minha fé. Não entendo por que tenho que encarar tudo sozinha, por que eu preciso cuidar de todo mundo, por que eu tenho que me deixar morrer todo santo dia, por uma causa que é simplesmente, perdida. Quando você passa muito tempo sendo ignorada pela vida, começa a vê-la com outros olhos. Olhos cansados, sem brilho. Olhos que não tem vontade nenhuma de olhar pra frente, procurar na multidão, algum reconhecimento. Tem sido difícil, rude. E, no final do dia, quando eu posso voltar pro meu quarto, quieta, sem ninguém, nem vozes, barulhos, somente ecos, tenho duas certezas: explodir - por que a pele ficou pequena demais - em cinzas ou sonhos; ou implodir, desabar dentro de mim, cansada e sem forças pra continuar.

11 comentários:

  1. Acho que há um terceiro caminho; se sentir assim oca é entrar em contato com o mais íntimo, é exatamente o que se pode ler aqui. Depois disso viver ultrapassando qualquer entendimento é o caminho sublime, o aqui e agora. Tudo é pra valer desde já, sem adiamentos.
    Beijos.

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  2. "... Tenho duas certezas: explodir - por que a pele ficou pequena demais - em cinzas ou sonhos; ou implodir, desabar dentro de mim, cansada e sem forças pra continuar."

    Minha parte preferida foi essa,com certeza, mas me identifiquei absurdamente com a parte inicial onde tu falas do amor pela madrugada. Troco o dia pela noite sempre e não consigo imaginar uma rotina diferente, acho que é no silêncio da madrugada que a gente se sente, se conhece e muito mais.
    Senti muita tristeza nesse texto. Falta de expectativas ou mesmo de fé. Espero que esse ano te traga surpresas que mudem esse cenário e alguns pensamentos.
    E realmente leio tudo com atenção, principalmente por gostar bastante do que tu escreves.

    ps: Achei lindo tu teres lidos os posts e adorado. Brigada mesmo! =)

    =*

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  3. Adoro seus textos. São escritos de uma forma bem concisa e inteligente. Em todo caso, obrigado pelos comentários em meu blog. Fico super feliz! Um grande beijo!

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  4. Também gosto da madrugada, parece que todo lugar vira outro lugar, gostaria de poder sair por aí às vezes na madrugada...

    Tudo isso soa muito poético, apesar de triste. Mas, culpar a vida que te ignora talvez pareça, mas não é uma saída e sim um falso conforto que não dura muito. Porque você tem que enfrentar tudo sozinha? Você não tem! Talvez a sua carapaça esteja dura e fechada demais. E aí... ninguém vai se arriscar, neh?

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  5. Que texto lindo, porém triste ...
    Sei que muitas vezes parece que a vida está sendo cruel contigo, que nada vem pra ti, mas talvez as oportunidades estejam escancaradas na sua frente e você só esteja cansada demais pelo que ficou no passado, e por isso não consegue enxergar ! Não perca tua fé, jamais, porque
    nos dias em que tudo parecer vazio, sem vida, quando tudo
    não passar de um eco, se tu tiver fé, só isso bastará,mas tem que ser sincera, porque se você acreditar de verdade,
    Deus tudo poderá fazer por ti :) forças flor. beijinhos :*

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  6. Sis, força! Ás vezes isso é só o impulso pra sair dessa de uma vez.

    Conta comigo!!!

    Bjs

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  7. Peguei pra ver hoje, a gente mora bem perto um do outro hein? Qualquer dia, vou te fazer uma visita :P hahaha

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  8. Pode ser nesse vazio que você ouvirá mais o que existe dentro de você.

    bjs flor!

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Dizem que a noite é quase imortal, mas sendo ou não, a serenidade da madrugada sempre será imortalmente bela aos meus olhos.
    Entre os seus textos que já li, com certeza, esse é um dos mais profundos e intensos.
    Com certeza a fé é algo fundamental para que possamos tornar a crer no que está tão distante, no que parecer ser impossível. Sabe, por mais que não a vejamos, por mais que pareçamos estar sós; Eu sei que, mesmo que você não a sinta hoje, a sua fé ainda está ai. Intocável e intacta. Basta que você a deixe se reaproximar de ti minha flor.
    Você é uma linda, sei que a fé nunca te abandonará, não completa e eternamente!
    Grande beijo Isa.

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  11. A inquietude de uma Taurina, que tem Venus como a Deusa, que precisar ferver e se faz notar só ao aparecer, eu adorei, tenha um quarta maravilhosamente intensa, beijos !!!

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