Desculpa se te chamo de amor...

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A demora.



Não sei, ela me parece ansiosa. Essa menina, eu digo. Quase me passa tranqüilidade, quando encosta sua cabeça na janela, e as gotas da chuva ficam fazendo um fundo bonito, eu diria. Logo, ela pega o celular, mexe em alguma coisa, desliga, volta a encarar a chuva lá fora. As pernas balançam de um lado pro outro, e talvez eu possa afirmar que vi ela dizendo pra si mesma "tá demorando demais". Me pergunto: o que será que está demorando demais? A chuva passar? Uma ligação? Um email? Não sei o que é. Só sei que parece estar demorando. Vejo ela mudar de posição e, sua cabeça, que antes estava encostada no vidro, agora está reta, encarando algum anúncio colado em uma das paredes, enquanto suas pernas, que antes estavam cruzadas, estão uma do lado da outra, com os cotovelos ali repousando. Posição feia, penso eu. Se ela soubesse que está sendo observada, talvez não se sentaria assim, mas algo está demorando.
Uma moça chega perto dela, e vejo um sorriso sendo esboçado naquele rosto que tanto espera por algo que demora. Logo, volto a pensar: era a amiga que demorava, então? Mas minha dúvida logo é respondida, quando vejo outra moça chegar e iniciar um papo com elas, porém, a que tanto espera, parece observar tudo de fora. Por um segundo, tenho a leve impressão que ela odeia tudo aquilo. Os sorrisos falsos, o papo sobre faculdade, estágio, trabalhos, roupas, marcas, novelas. Isso não tem nada a ver com ela. Mas, pelo menos, ela teve com o que se distrair. Vejo o olhar dela desviar pra algum ponto qualquer e, de novo, penso ter ouvido um "será que demora?" falando em voz baixa, novamente, só pra ela mesma ouvir. A porta se abre, e de lá sai um cara. Percebo a mudança na postura e o brilho que surge nos olhos dela. Então era ele quem tanto demorava? Não era "algo", e sim, "alguém"?
O moço a cumprimenta e sorri, mas logo vai embora. Tenho o dez-prazer de ver aquele sorriso tão bonito - e que eu vi tão pouco - ir sumindo assim, de pouquinho em pouquinho, até não sobrar nada. Então, não, não era ele quem ela esperava. Agora eu entendo como é, e o que tanto demora. Eu já deveria saber. Ela já sabe. Eles nunca são a resposta. E nunca serão. Nem eles, nem elas. Ninguém é a resposta. Nem as amigas, nem o celular, nem o sorriso, nem a chuva. Agora eu sei como ela se sente. Todas as noites, ela deita a cabeça no mesmo travesseiro, se cobre com o mesmo edredon, e repassa seu dia mentalmente. Nenhum rosto. Ninguém que ela queria ver desesperadamente no dia seguinte. Nada. Vazio. Oco. Ela já não espera mais nada.
Vejo ela se levantar, colocar a bolsa em cima de um dos ombros, e ir embora. É a única coisa que ela sempre espera. Ir embora. De todos os lugares, de todas as chuvas, de todos os sorrisos que a cumprimentam, de toda a futilidade. Ela não esperava nada a não ser, sair de onde ela está.

10 comentários:

  1. Só por que tá chovendo você postou esse texto, né?! Hahahaha

    Sei lá, me deixou triste :S
    Se sentir assim deve ser horrível demais...

    Aliás, parece muito com um texto da TB, né?
    Lindo os dois...

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  2. Tudo isso aí é bom de se ler quando quem escreve tem o dom raro de traduzir emoções em palavras.
    Amei, Belle.
    Beijos

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  3. Seus contos são ótimos, Isa!
    Me encontrei um pouco neste...

    Dá uma coferida lá no meu blog, tem selinho pra você! ^^

    beijos

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  4. Nossa, que perfeito esse texto *-*
    Desde o dia que conheci seu blog me apaixonei pelos seus contos, eles são demais, sério.

    beijo.

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  5. Que lindo... Me identifiquei com esse vazio, eu também sei como é esperar 'a mágica' de cada dia e ela nunca acontecer... Vejo muita gente falar em viver o momento, e eu tenho tentado, mas a sensação de sempre esperar por algo a mais às vezes é inevitável e quase sempre decepcionante.

    :)

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  6. Muito obrigado pelo comentário. Também estou seguindo :)

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  7. Viajeiro das perdidas madrugadas
    Navegante de barcos de papel
    Preso aos brandais desta Nau da esperança
    Afugento a fome com pão e mel

    Mato a sede na saliva das tuas palavras
    Tempero o sentir com o sal das tuas lágrimas
    Recolho uma flor que eclodiu do basalto
    Gerado num vulcão de sete chamas


    Doce beijo

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  8. E, qnd comecei a ler, em meu player, tocava: LOS HERMANOS - SANTA CHUVA.

    é pra trucidar com o coração de qlqr um (y)

    esperar é tranquilo...tranquilo pra pessoas que ñ têm sentimento, que sabem como é viver sozinho..isso, pelo que percebi, ñ é pra vc!

    Gostei da lenidade com que escreve. Parabéns. Estou seguindo aqui,ok?

    carlo.lagos@hotmail.com

    bjs. ;)

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  9. E chove por dentro, gotas desse amor. Dor, desilusão!!!

    Tão bonito, Tão real.


    beijo

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